• Pela Região do Douro

    Apreciar um vinho do porto mais do que um cerimonial carregado de tradição deve ser um gesto do dia-a-dia, degustando este vinho único, sempre que possível. Na verdade nada melhor do que ter uma garrafeira bem apetrechada em vinhos do porto para que sempre que nos apeteça tenhamos à mão aquela garrafa que o desejo nos indica.

    Falar de vinho do porto é um tanto vago pois referimo-nos a todo o vinho produzido na região do douro, situada a uma centena de quilómetros do porto, segunda cidade de Portugal, que por ser a única por onde este era escoado o baptizou.

    Note-se que esta região do douro foi demarcada em 1756 pelo marquês do pombal numa tentativa bem conseguida de pôr ordem no comércio deste vinho que tão importante era para as exportações portuguesas da altura, e que acabou por determinar o nascimento da primeira região demarcada do mundo.

    Abordemos então as categorias de vinhos do porto para, desta forma, sermos mais específicos e concretos em relação ao que nos referimos. Numa primeira distinção os vinhos do porto diferenciam-se entre os vinhos do porto brancos obtidos pela fermentação de uvas brancas e os vinhos do porto tinto obtidos através da fermentação de uvas tintas de castas seleccionadas para tal, em ambos os casos.

    Os vinhos do porto brancos são duma forma geral apreciados como aperitivos em ambas as suas categorias, a mais doce vulgarmente conhecida por Lágrima e a seca, designada por Dry, acompanhados por uns frutos secos, torrados ou não.

    Porém, há quem utilize estes vinhos para fazer cocktails juntando-lhe gelo e limão, e outros acrescentando água tónica e uma folha de hortelã-pimenta, ambas as alternativas válidas, como o serão outras tantas a gosto de quem as consome e faz proveito. Cabe aqui uma palavra para informar que também são produzidos vinhos do porto brancos envelhecidos tão apreciados quanto reduzidas as produções, fica a nota.

    Os vinhos do porto tintos esses sim, os mais conhecidos são classificados segundo o estágio que lhes destinam e a duração do mesmo. É nestes vinhos que nos surgem os Rubys, assim conhecidos pela beleza da sua cor muito apreciados frescos ou como aperitivo, optando, por vezes, por ser deleitado com melão no célebre “melon au Porto” ou por outras soluções mais ou menos inovadoras e inventivas que até podem passar por receitas que o inclua como tempero essencial, principalmente quando usado para enriquecer pratos de caça: perdizes, “sanglier”, lebre, até mesmo um veado ou gamo, não esquecendo o caso dos patés.

    Numa escala crescente de complexidade fazem a sua aparição os Late Bottled Vintage, vinhos outrora armazenados durante dois anos em cascos após os quais eram engarrafados para não ganharem notas de evolução. Ricos, frutados, agradáveis fazem boa companhia a queijos de ovelha de meia cura, e melhor companhia fazem a sobremesas medianamente doces, em cuja confecção podem eventualmente entrar. Sugerimos até um casamento atrevido: a sua mousse de chocolate com um bom Vinho do Porto Late Bottled Vintage.

    O topo das categorias dos vinhos do porto são os Vintage, vinhos obtidos através da vinificação de uvas de uma propriedade, por vezes até de algumas parcelas apenas, e outras de uvas provenientes de parcelas de várias propriedades.

    Apenas as melhores uvas servem para a criação destes vinhos do porto Vintage que são engarrafados cedo garantindo a sua longevidade e na garrafa fazem a sua evolução. Apreciá-los a solo em fim de refeição, ou com arrojo a acompanhar a mesma quando esta for composta por uma bela peça de carne de boi, devidamente confeccionada. Como sabe estes vinhos podem coleccionar-se em cave, valendo a pena, sem dúvida, guardar os anos declarados como míticos.

    Falemos agora dos vinhos do porto Tawnys, categoria que indica de imediato a presença na madeira, sim os vinhos do porto Tawnys são vinhos do porto Rubys que vão evoluindo em madeira substituindo as notas frutadas iniciais por outras como de frutos secos, especiarias, vinagrinho, tabaco…

    Os vinhos do porto Tawnys destinam-se especialmente a ser servidos como aperitivos, frescos, e a acompanhar em fim de refeição as sobremesas que forem servidas, variando entre o médio doce e o muito, de acordo com os gostos pessoais de quem os aprecia.

    As categorias dos vinhos do porto Tawnys são muitas, cabendo mencionar as mais conhecidas, note-se que estes vinhos são sempre obtidos pelo lotear de vários vinhos. A primeira categoria são simplesmente os vinhos do porto Tawnys que apresentam ainda algum frutado mas já com notas evidentes de evolução, diríamos que se tratam de lotes de vinhos cujo resultado final dê uma prova organoléptica de um vinho do porto com cerca de 5 anos de idade. A estes vinhos do porto Tawnys seguem-se os 10 anos que agora facilmente percebemos serem obtidos através do casamento de vinhos do porto que dêem uma prova organoléptica de um vinho de 10 anos.

    Nesta lógica encontra igualmente os 20, 30,e 40 anos, sendo estes últimos obtidos com o casamento de lotes de vinhos do porto, onde alguns apresentam mais de 80 anos, verdadeiros bálsamos. É ainda nesta categoria que encontram os vinhos do porto velhos.

    Apetrechar uma cave de forma minimamente honesta implica, diríamos, que aí repousem pelo menos duas garrafas de cada uma das categorias de vinhos do porto brancos, e pelo menos uma meia dúzia de vinhos do porto ruby, Late Bottled Vintages e Vintages, estes últimos de produtores e anos criteriosamente seleccionados. Acrescente ainda uma meia dúzia de vinhos do porto Tawnys e 10 anos, sendo que das categorias 20, 30 e 40 anos apenas duas garrafas para apetites especiais, a bem da sanidade da nossa bolsa.

  • A Tradição do Porto

    Voltemos ao consumo de Vinhos do Porto Tintos para afirmar que embora aceitemos o facto, carregados de tradição, os devemos, como sempre fiz, adaptar aos nossos dias, às nossas casas, ao nosso gosto, nunca passando, isso nunca, ao seu lado por preguiça ou desconhecimento.

    Um bom Vinho do Porto Tinto Ruby faz as minhas delícias consumido fresco como aperitivo, ou a acompanhar alguma sobremesa mais gulosa que distraidamente, ou não, apareça lá por casa, as suas características frutadas, ricas e jovens são para isso a companhia ideal. Confesso que uma ou outra vez – sou pródigo por natureza – temperei alguns pratos de caça com este Vinho do Porto com excelentes resultados, nomeadamente quando, mais tarde à mesa, se reencontrava o mesmo vinho no prato e no copo, sim acompanho refeições com Vinhos do Porto Tinto Ruby.

    A juventude da família, amigos destes incluídos, preferem apreciá-lo juntando-lhe a frescura duma meloa cortada ao meio, recipiente ideal para uma generosa golada deste vinho, ou então, descoberta do meu filho mais velho, a acompanhar mousse de chocolate feita lá em casa, tarefa a que a minha mãe e sogra se entretêm ao despique.

    Caso mais sério e comprometedor é servir um vinho do porto tinto da categoria Late Bottled Vintage não só pela sua exigência de acompanhamentos à mesa, mas também o seu preço obriga a alguma ponderação. Tradicionalmente servido a acompanhar as sobremesas mais ricas, o que faço sempre com grande sucesso, para minha surpresa uma vez que a conselho de um amigo consumi um vinho do porto tinto Latte Bottled Vintage a acompanhar um excelente queijo de ovelha, meia cura, que comprei para a ocasião.

    Os resultados de tão surpreendentes ganharam força de tradição e sempre que tenho amigos ou família em refeições de maior responsabilidade abro e sirvo este vinho com os queijos (experimente com queijos azuis) e claro, as sobremesas doces continuando, por vezes, aos presentes a apreciar este vinho do porto tinto late bottled Vintage uma vez a refeição terminada.

    Os Vinhos do Porto Tintos Vintage por reconhecidos como os “primus inter pares”, os melhores em suma, e talvez por isso registem todo um cerimonial à sua volta digno de menção. Nem todos os anos são Vintage, são-no quando os produtores reconhecem unanimemente a qualidade da colheita e assim o declaram. Recentemente abriu-se a possibilidade de, reconhecer a valia de que certos “terroirs” podem ser beneficiados pelas condições climatéricas em determinados anos, para que os produtores possam declarar esse o ano de vinhos do Porto Tintos Vintage para um ou outro Vinho de Porto produzido nas suas quintas.

    Reza a tradição que estes Vinhos do Porto Tintos Vintage devem ser reservados para momentos especiais, celebrações, efemérides, presentes de monta, afastando-os, desta forma, da regularidade do são convívio à mesa e da sua fruição enquanto grandes vinhos, isto, claro, na minha opinião de que os vinhos se fizeram para beber, embora insista em guardar um ou outro…

    Sempre que posso, e as refeições o pedem, sirvo em casa um belo Vinho do Porto Tinto Vintage, fazendo-o circular pela esquerda, naturalmente, mas circula e bebe-se, frui-se. Passada a ancestral rigidez de serviço à mesa, em casa alguns elementos não se coíbem de, quase abusando da minha prodigalidade, se servir de doses generosas destes vinhos do Porto Tintos Vintage, sabendo, que uma garrafa por refeição é o limite, uma vez que não somos assim tantos à mesa, e embora gulosos eu não sou nem distraído, nem rico (esta última infelizmente).

    Sirvo o Vinho do Porto Tinto Vintage sempre a acompanhar sobremesas doces, as mais doces, nomeadamente as descendentes de receitas conventuais em cuja confecção entram muitos ovos, muito açúcar para só mencionar os ingredientes mais importantes, e é sempre uma festa e um momento alto quando anúncio a todos que hoje servirei um vinho do porto tinto vintage à refeição. Note que o servir este porto tem a enorme vantagem de o mesmo poder continuar a enriquecer as conversas após o término da refeição sendo recomendado, senão exigido que a garrafa aberta deva ser consumida no dia da abertura.

    Convido-o a procurar mais situações de consumos de vinhos do porto tinto vintage, nomeadamente como a que experimentei no outro dia e que foi absolutamente avassaladora: reguei com Vinho do Porto Tinto Vintage toda uma refeição de cuja ementa constava apenas um grande bife de uma peça nobre da vaca ou boi, como preferir designar, acompanhado pelos tradicionais arroz, batatas fritas, ovo estrelado e legumes, muita escolha para cada um poder fazer as suas opções favoritas.

    Dizia que o resultado foi extraordinário a força do Vinho do Porto Tinto Vintage casou na perfeição com a proteína da carne e foi memorável, seguindo para as sobremesas e demais conversa a ponto de já circularem lá em casa abaixo-assinados a pedir a repetição do acontecimento. Particularmente confesso-lhe que nesse dia condescendi a servir não uma, mas duas garrafas de Vinho do Porto Tinto Vintage.

    Voltando a alguma formalidade é natural que esteja curioso relativamente a dois temas: em que copos se servem os Vinhos do Porto Tintos Vintage, e qual a adequada temperatura de serviço. A primeira questão encontra a resposta nos modelos de copos a que convencionou baptizar-se de Savoy, Paris e Iso.

    Duma forma geral são redondos, quase circulares para melhor reterem os infindáveis aromas dos Vinhos do Porto Tintos Vintage. Já a segunda questão merece uma abordagem mais delicada, pois muito consta sobre este tema, posso, no entanto, tentar transmitir-lhe a minha experiência e que se resume a consumir os vinhos do porto tintos a temperaturas baixas por volta dos 13 º pelos seguintes motivos, primeiro aquecem rapidamente e segundo, delicia-me começar a consumi-los algo austeros e, à medida que a temperatura sobe, descobrir-lhes a graça dos seus aromas que se vão então revelando graciosamente.

    Eis, pois, o que me disponho a partilhar consigo sobre modos de consumo de vinhos do porto tintos, e que mais não são do que pistas que se o incentivarem a percorrer este caminho, serei o mais feliz dos homens.

  • A Influência Inglesa nos Vinhos do Porto

    É uma responsabilidade falar sobre os vinhos do porto tintos, pois sempre que neles penso sinto o peso da história e, com ela, da tradição sob os meus ombros, e o seu olhar atento não vá dizer algo que não seja do seu agrado. Tremo, hesito, respiro fundo, mas, lamento não desisto, pois sempre preferi falar sobre os assuntos, desde que minimamente informado, correndo o risco de cometer alguma imprecisão – peço desde já que me perdoe – do que pura e simplesmente ficar silencioso.

    Sempre gostei de consumir vinhos do porto em todas as suas categorias, embora hoje recorde aqui a fase em mais me deliciei a apreciar vinhos do porto tintos. Lembro que nesta categoria de Vinhos do Porto encontramos os Ruby, os Late Bottled Vintage e os todo-poderosos Vintage. Podem ainda encontrar – se outras categorias como o Fine Ruby, ou Ruby reserva que mais não são do que variações mais ou menos idosas da sua categoria original, os Ruby.

    Abordar os vinhos do porto tintos é recordar toda uma história repleta de língua inglesa, pois foram, e são, os ingleses que “ab initio” lá estavam e muitas, mas mesmo muitas, linhas escreveram na sua longa história. Recordemos que Inglaterra possui com Portugal o mais antigo tratado do mundo ainda em vigor, o Tratado de Windsor, tendo este resultado duma longa tradição de trocas comerciais entre ambos os países.

    Inglaterra necessitava de vinhos, azeite e fruta que comprava a Portugal que por sua vez lhe adquiria bacalhau pescado nas suas costas, e mais tarde, entraram os lanifícios na equação, numa normal evolução de relações comerciais entre países. Os primeiros vinhos que os ingleses adquiriram a Portugal eram tintos da região mais a norte de Portugal, e dos quais sem apreciarem, – eram acídulos e com fraco teor de álcool o que os tornava instáveis, de curta duração – necessitavam. À medida que os ingleses desciam na geografia portuguesa encontravam novos vinhos, brancos nomeadamente, que melhor ou pior lá iam comprando, sempre na esperança de encontrar um melhor, o que acabou por acontecer quando provaram – beberam – os vinhos tintos do douro, que não sendo perfeitos melhoravam o panorama.

    Apesar de tudo não eram ainda vinhos perfeitos pois de teores alcoólicos variáveis e, porque não dizê-lo, na época facilmente adulterados realidades com que foram convivendo até que após aturada busca e incursões ao douro sua região de produção, encontram finalmente o vinho do porto que além de ser um vinho estável tem outra característica que de imediato apaixona os ingleses: era doce.

    Nessa altura, o Porto contava já com uma assinalável e influente colónia inglesa tendo nesta cidade a sua feitoria, local onde os comerciantes de nacionalidade inglesa se reuniam para discutir os seus interesses, e apreciar os seus vinhos do porto.

    Não custa acreditar que no início a maioria dos vinhos do porto seriam tintos, e que estes seriam consumidos não só no porto como prodigamente o seriam nas tabernas inglesas servido em canecas e conhecido como o “red strap”, na altura um vinho austero, de cor carregada e seco. Para garantir que estes vinhos chegavam ao destino em condições era frequente os comerciantes juntarem-lhes uma dose adicional de aguardente.

    Com o passar do tempo e a regulamentação da produção e comércio dos vinhos do porto estabiliza não só o mercado como os vinhos do porto em si, agora classificados com categorias bem identificadas, sendo nesta altura que aparecem designações como tawnys, vintages etc.

    Os vintages são vinhos do porto tintos têm a eles associada uma tradição na altura de serem servidos a qual não custa crer tenha surgido a mesas inglesas talvez mesmo na sua feitoria. Como certamente sabe a categoria de vinhos de porto vintage é a mais elevada, pois estes apenas podem ser criados a partir de uvas duma mesma vindima, as de melhor qualidade preferencialmente oriundas duma só propriedade ou, por vezes, até de uma ou outra parcela.

    Confirmado o seu valor e nobreza convinha assinalá-la com um sinal distintivo facilmente reconhecido e repetido. Como sabe à mesa o convidado de maior cerimónia senta-se sempre à direita do anfitrião, no entanto se se tratar dum casal o marido sentar-se-á à direita da mulher do anfitrião, e a sua mulher à direita do anfitrião.

    No primeiro caso seria normal que numa mesa de senhores o anfitrião abrisse a sua garrafa de vinho do porto vintage e a servisse em primeiro lugar ao seu convidado de maior cerimónia, ou seja o sentado à sua direita, ora é exactamente aqui que os ingleses baralham o jogo e uma vez aberta a garrafa de vinho do porto vintage manda a tradição que o anfitrião se sirva do seu vinho do porto vintage, rolhe novamente a garrafa do vinho do porto vintage e a passe ao conviva sentado à sua esquerda, que repetirá a operação, imitando o procedimento à volta da mesa até a garrafa de vinho do porto vintage chegar de novo às mãos do anfitrião, sendo a pessoa de maior cerimónia o último a servir-se.

    A que se deve esta tradição, ninguém sabe e as explicações são as mais diversas, e vão desde o invocar antigos costumes- tão antigos que ninguém deles se lembra – e situações mais prosaicas como garantir que todos, por cerimónia, se servem de vinho do porto vintage com comedimento por forma a garantir que a preciosa garrafa de vinho do porto vintage chega ainda com vinho suficiente às mão do convidado de maior cerimónia, certamente por todos respeitado, senão temido.

    A verdade onde está? Ninguém com segurança saberá mas em minha opinião resido no simples facto de que deve sempre que possível consumir vinhos do porto, nomeadamente tintos, sempre que possível, e o mais cedo possível, uma vez ser uma pena descobrir os prazeres que vida que realmente valem a pena demasiado tarde…

  • Vinhos do Porto Brancos

    Para trás, deixámos os Vinhos do Porto Brancos (obtidos a partir de uvas brancas), não por serem menos importantes, mas por serem comercializados em menores quantidades e, por isso, menos conhecidos.

    Numa abordagem simplista estes vinhos podem classificar-se entre os doces, cuja categoria mais conhecida são os Lágrima, e os secos Dry, sendo que dependendo dos gostos se destinam a ser consumidos como aperitivo, acompanhados por uns frutos secos. Há quem aproveite estes vinhos e se delicie juntando umas pedras de gelo e uma casca de limão, outros vão mais longe na sua leitura e ao gelo somam uma folha de hortelã-pimenta, atestando com água tónica. Prove, comprove, teste, e deslumbre-se com estas ou outras soluções.

    Uma nota adicional especial para os gulosos que adoram chocolate e que ainda não encontraram um vinho para o acompanhar, pois bem, aí está a boa notícia experimente acompanhar o seu chocolate amargo com um vinho do porto tinto Ruby, a sua mousse de chocolate com o mesmo vinho ou com um vinho do porto Tawny 10 anos e verá que as boas surpresas sucedem-se ao ritmo exacto da sua curiosidade, do seu atrevimento e do gosto que é descobrir este caminho novo, lendo e relendo os antigos vinhos para os apreciar nos nossos dias com todo o prazer.

    Como vê pergunto-lhe agora eu, o que é o vinho do porto, e estou seguro que a resposta que daria antes de ler estas linhas que tenho escrito é bem diferente da que me dará agora. No primeiro caso tentaria dar-me uma explicação mais ou menos vaga, no segundo perguntar-me-á que categoria de vinho do porto para acompanhar com quê. É este o caminho da descoberta e do prazer, julgando por nós, conjugando, avaliando e chegando às nossas verdades sempre, mas sempre com vinho do porto, sobre o qual se diz em Portugal que tem duas funções a cumprir, uma é ser tinto outra é ser bebido. Será?

    A título de epílogo gostaria de relembrar uma coisa que embora básica frequentemente é esquecida: nenhuma cave está completa sem uma boa representação de vinhos do porto tintos e brancos, pois agora que os descobrimos, que os bebamos sempre que nos apetecer, e para isso temos de os ter à mão, escolhidos por nós e para nós, preferencialmente em directo dos produtores.

  • A Prova de um Tawny

    Sigamos agora os passos dos vinhos do porto tintos cujo destino após fermentação são o estágio na madeira, seja em pipas, balseiros ou quartolas. Para destinos diferentes, estilos diferentes, eis que com o decorrer do tempo nos surgem os Tawnys em cujo inicio de vida em tudo iguais aos vinhos do porto tintos Ruby, mas uma vez adormecidos na madeira vão surgir processos de oxidação entre outros que conferem a estas vinhos características novas próprias do envelhecimento, bem patentes nas cores, nos aromas e sabores que os caracterizam, apresentam-se-nos aloirados e desenvolvem com o passar do tempo aromas a frutos secos, a especiarias, vinagrinhos e outros consoante a idade.

    Note-se que estes vinhos são essencialmente de lote, sendo as suas principais categorias: Tawny, 10 anos, 20 anos, 30 anos e 40 anos. É nestes vinhos que se encontram os vinhos velhíssimos do porto, por vezes com mais de 100 anos.

    Como apreciar um Vinho do Porto Tawny?

    Os Vinhos do Porto Tawnys 10 anos, não são ao contrário do que se possa pensar Vinhos do Porto que estagiaram durante 10 anos, nada disso, são isso sim vinhos resultantes de um lote cuja prova seja a de um vinho que tenha estagiado durante 10 anos. Na sua composição podem entrar vinhos com estágios superiores, 20, 30 anos, lotados com outros vinhos do ano, por forma a obter o estilo da casa ou produtor. Veja-se a importância para cada produtor, não só do enólogo mas, tão importante, dos stocks que deve e tem de ter, para poder apresentar em mercado quantidade deste Vinho do Porto Tawny.

    Claro que tudo se complica quando avançamos para as categorias mais exigentes e exclusivas dentro desta categoria, como sejam os 20, 30 ou 40 anos. Imaginemos só as idades dos Vinhos do Porto Tawnys utilizados no desenho de um vinho cuja prova seja de um Vinho do Porto que tenha estagiado 40 anos. Falamos de Vinhos do Porto com 50, 60,70 até 80 anos de estágio, verdadeiros bálsamos.

    Perante esta riqueza e a título de orientação diria para apreciar estes vinhos, sempre frescos, em fim de refeição com sobremesas mais ou menos doces, a gosto, os sem elas por puro prazer que se prolonga muito para além da refeição ou acompanhando com alguns frutos secos.

  • Como se cria um bom Vinho do Porto Tinto Vintage?

    Eis-nos chegados ao topo do Vinho do Porto Tinto, o Vintage, vinhos de um só ano, por vezes duma só propriedade, e outras ainda de uma só parcela, tal a importância que os produtores atribuem a estas suas jóias.

    Como se cria um bom Vinho do Porto Tinto Vintage? Simples, apenas com as melhores uvas, das melhores proveniências, tratadas e vinificadas a preceito, após o qual repousam durante dois anos em depósito, de madeira ou não, após o que são engarrafados sem filtragem ou tratamento, obedecendo ao velho e válido princípio de manuseamento mínimo para qualidade máxima…

    Saiba-se que nos nossos dias as quintas podem declarar anos Vintage de forma independente, ou a maioria dos produtores sempre que a qualidade o reconheça, declaram igualmente ano Vintage, estranho dirá, não, afinal mais não é do que reconhecer a riqueza do terroir possibilitando que certos anos beneficiem certas zonas, e que estas capitalizem o facto.

    Mais, registe-se que o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto tem sempre que aprovar este facto nomeadamente através da prova dos vinhos, submetidos a painel de prova. Os mesmos têm de possuir características mínimas estabelecidas para a categoria, só então são aprovados como Vintage.

    Apreciar um Vinho do Porto Tinto Vintage, mais do que uma ocasião especial deveria ser um momento especial e frequente, daqueles que nos marcam e recordamos com saudade.

    Há uma tradição associada ao serviço dos Vinhos do Porto Tintos Vintage: o anfitrião abre cuidadosamente a garrafa, serve-se, rolha novamente a garrafa e passa-a ao seu conviva do lado esquerdo, que repete a operação, até que a mesma tenha rodado entre todos os convivas e voltado à posse do anfitrião, aí, com saúde, ou sem ela, todos se deleitam a apreciar esta néctar dos deuses.

    Aprecie os Vinhos do Porto Tintos Vintage, com sobremesas ricas e doces, ou em fim de refeição. Para os mais arrojados sugerimos que o sirvam à refeição a acompanhar um bom bife (de uma peça nobre da vaca) mal passado, uma delícia pois, segundo os entendidos, as proteínas da carne suavizam os taninos do vinho) proporcionando um casamento inesquecível.

  • Late Bottled Vintages

    Os Late Bottled Vintage são vinhos do porto tinto de um único ano que podem ser engarrafados entre o quarto e sexto ano após a colheita, isto para que se mantenham as suas características originais, evitando que os mesmos assumam algum carácter de oxidação desvirtuando esta categoria enquanto tal.

    Conta-se, cremos que com verdade, que nos anos de míngua de procura os Vinhos do Porto Tintos, Vintages eram guardados em cascos onde esperavam comprador.

    Quando este tardava em aparecer iam ficando, e ficando, sendo engarrafados mais tarde quando mais macios e domados para serem introduzidos no mercado, não como vintages, mas como Late Bottled Vintages, com imediata aceitação junto de todos.

    Como servir um Vinho do Porto Tinto Late Bottled Vintage? Simples, com queijos de ovelha meia cura, pasta semi mole, que poderá ir variando até acertar na sua eleição favorita, e, claro, com sobremesas variadas, não exageradamente doces.

  • Como servir um Vinho do Porto?

    “Deus criou o homem e a água, mas o homem criou o vinho, e o homem do douro, aturado e atento, criou o vinho do porto”

    Alfredo Saramago in o vinho do porto na cozinha, história e gastronomia, Collares Editora.

    A trabalhar em Clubes de Vinho há mais de 35 anos e português de nascimento, valem-me estas referências algumas perguntas recorrentes ao longo da minha vida, uma delas é como servir um vinho do porto – sempre que a oiço um sorriso aflora-me aos lábios, respiro fundo e tento abordar este tema com a seriedade que merece, explico porquê.

    Compreendo o interesse, que comungo, das pessoas pelo tema vinho do porto e anos atrás encontrava a resposta assente na riquíssima história deste vinho, desta região, deste país. Hoje, porém, tento abordar a questão duma forma mais simplista, igualmente séria e interessada, baseada no esclarecimento do facto de que vinho do porto sendo tudo, não é nada. Chocado? Estupendo, explico.

    Começo com uma curiosidade pois vinho apesar de se chamar do porto nada, ou quase, tem a ver com esta cidade aparte de ser exportado através da sua barra, o que lhe valeu o seu nome de baptismo. Na verdade a sua zona de produção deste vinho sempre foi o douro, uma região distante, montanhosa e agreste, obrigatoriamente armazenado em vila nova de gaia para onde era transportado de barco e daí exportado para o mundo, repito, através da barra do porto.

    Entender bem o vinho do porto exige alguma reflexão e curiosidade pelo que peço me acompanhe no desbravar desta riquíssima região de 250.000 ha, o douro, onde, na verdade, foram, são e serão produzidos os vinhos do porto. Plural, mas afinal não há só uma categoria de vinhos do porto? Não, não há, basta pensar que nesta região se produzem uvas brancas e uvas tintas, o que logo na origem condiciona o tipo de vinho do porto, entre naturalmente, o branco e tinto.

    A partir deste marco, debrucemo-nos então sobre os destinos que os vinhos do porto tintos podem ter, e que condicionam a sua vida e, com ela, a sua classificação nas categorias existentes.

    Terminada a fermentação das uvas amuada com aguardente, os vinhos do porto tintos têm dois destinos possíveis, cubas de inox, ou pipas que nesta região têm a capacidade de 550 litros.

    Sigamos os primeiros que no final da fermentação recebem o nome de Ruby, muito possivelmente devido às suas cores, e que se caracterizam por aromas a fruta jovens, pujantes com notória presença do álcool, uma vez que, como todos os vinhos do porto, estes vinhos do porto tintos, podem oscilar entre 16º e 20 º de teor alcoólico.

    Apreciar estes vinhos do porto tintos é muito fácil, frescos (14º/15º) são um excelente aperitivo, e numa refeição sirva-o, por exemplo, numa meloa fresca, cortada ao meio, verta uma generosa dose deste vinho do porto tinto, rubi, e delicie-se com o seu “melon au porto”. A título de curiosidade nos finais da i grande guerra mundial em Inglaterra faziam um cocktail com os vinhos do porto tinto, rubi, adicionando-lhe sumo de limão, umas pedras de gelo a que juntavam uma dose variável de gasosa.

    Continuando o percurso dos vinhos do porto tintos, outros há que pela sua estrutura não convém serem consumidos de imediato pois, de tão potentes serem, são imbebíveis na sua primeira juventude, mandando o bom senso que se espere por eles. Legislou-se sobre o assunto de acordo com a tradição e bom senso, surgem assim mais duas categorias de Vinhos do Porto Tintos, que com certeza bem conhece, os Late Bottled Vintage, e os Vintage.

  • A Madeira também bebe

    A madeira – barricas – surge desta forma como a resposta natural para o armazenamento e transporte de vinhos, uma vez que a capacidade e resistência deixam de ser um problema, que basicamente se centra na evaporação que acontece quando o vinho aí é armazenado, fenómeno que é citado pelo povo ao afirmar que a madeira também bebe.

    Claro está que a madeira transmite igualmente os seus sabores ao vinho, hoje e sempre tão apreciados em todo o mundo, senão mesmo valorizados. Esta é, como já se apercebeu, a origem dos vinhos com madeira de que você tanto gosta. Curioso não é?

    A lógica indica-nos que, segundo a madeira escolhida para fazer as barricas assim é a sua influência no vinho, sendo as madeiras mais frequentes o carvalho francês e americano. As ditas barricas transmitem mais o seu cunho ao vinho, quanto mais jovens são, quanto mais tempo o vinho está aí armazenado, e, não menos importante, quanto menor a sua capacidade.

    Está assim encontrada a resposta a esta questão, fomos busca-la à história…

  • Porque se Plantam Roseiras nas Vinhas?

    A curiosidade é o motor do mundo, e isto é tão verdade que há pouco encontrei finalmente a resposta para uma questão que há muito me acompanhava: porque se plantam roseiras nas vinhas?

    A minha primeira resposta foi a de, um tanto irreflectidamente, considerar os agricultores uns estetas cuidando do visual das vinhas, confesso que esta minha primeira tentativa não resistiu a mais de cinco minutos de reflexão, pois todos os viticultores dispunham rosas nas cabeceiras das linhas de vinhas. Um ou outro viticultor mais sensível ainda ia, mas todos, a reposta teria de ser de outra natureza.

    Fica de todas as formas o belíssimo efeito decorativo que roseiras conferem às vinhas com riquíssimos apontamentos de variadas cores, pois tinha igualmente reparado que as roseiras não eram todas da mesma variedade mas sim de diferentes: rosa, amarelo, encarnado, brancas, etc.

    Voltando à explicação, ou tentativa de, ela teria que estar associada a um benefício prático que as roseiras aportavam à vinha, e assim de repente supus ali estarem para atraírem abelhas para facilitarem a polinização também na vinha. Recordando nesta altura uma conversa de tempos idos em que alguém me dizia que afastavam igualmente os pássaros, o que confesso, nunca acreditei muito…. Fiquei-me pela polinização.

    Entretanto, e por acaso, encontrei um velho conhecido meu, homem de saber reputado e de experiência confirmada, e entre várias conversas saiu-me esta pergunta sobre qual a razão desta opção pelas roseiras. A resposta surgiu e de tão simples quase me culpei por nunca me ter ocorrido, e confirmou-me que há uma natureza prática que explica este facto.

    O seu início vem de antanho quando com um saber de experiência feito se intuíam o tempo, as doenças, as lavras a fazer. Nesses tempos longínquos os mais observadores aperceberam-se que certo tipo de doenças é que afectavam as vinhas, ao atacarem primeiro as roseiras tinham assim um indicador seguro e fiável que os mandava de imediato curar as vinhas para salvar a produção.

    As doenças que vos menciono são o oídio e o míldio, ainda hoje temidas pelos viticultores, e nada mais simples para estes do que dispor rosas nas cabeceiras das linhas, para ao mínimo indício de qualquer uma destas doenças, curar a vinha e a garantir o sustento.

    Quem sabe, sabe. Quem não sabe deve ser, no mínimo, curioso…

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